Início > Segurança > Uma Breve História das Moedas Virtuais

Uma Breve História das Moedas Virtuais

A história do dinheiro revela um desafio central: como desenvolver um sistema que possa efetivamente facilitar o intercâmbio de bens e serviços ao mesmo tempo que gera prosperidade e impede que as instituições que o administram abusem da confiança decorrente dessa função? No terceiro episódio da série O Futuro das Instituições Financeiras, Jim Kittridge apresentou uma Breve História das Moedas Virtuais. Curiosamente, essa história começa no século XIX. Antes de tratarmos das moedas virtuais, precisamos entender o que é uma moeda real e o que a faz ter um valor real.

A Moeda Fiduciária

Você já pensou quanto realmente vale uma cédula de Real em sua carteira? O valor real daquele pedaço de papel não é o que está estampado, mas sim o contrato que ele representa. Para que qualquer moeda se torne viável, é necessário que ela conquiste a confiança da comunidade: as pessoas devem concordar que o dinheiro pode ser trocado por bens e serviços. No caso das criptomoedas, a confiança deve ser independente de agentes governamentais ou financeiros.

Como podemos confiar no valor intrínseco da moeda? Um caminho é atrelá-la à um produto valioso, escasso e durável como o ouro – isso é chamado de lastro. Estando atrelada (lastreada), a moeda não fica tão suscetível à inflação. O valor de um bem está atrelado a diversos fatores, dentre eles a importância deste para o mercado e o quanto as pessoas estão dispostas a pagar pela mercadoria. Isso tudo se encontra dentro de uma sistemática ligada à oferta e a demanda.

De 1944 a 1971 o valor do dólar era fixado em US$ 35.00 por 31,1034768 gramas de ouro de acordo com o sistema de Bretton Woods. O sistema acabou em 1971, quando o presidente Richard Nixon cancelou a conversibilidade do dólar em ouro, deixando o câmbio flutuante e acabando com qualquer lastro do papel-moeda.

Moeda real ou fiduciária (fiat money) é qualquer título emitido por um governo central ou instituição financeira que seja não-conversível, ou seja, que não seja lastreado a nenhum metal (ouro, prata) e não tem nenhum valor intrínseco [2]. Seu valor advém da confiança (fidúcia, do latim fidere, confiar) que as pessoas têm em quem emitiu o título. A moeda fiduciária pode ser uma ordem de pagamento (cheques, por exemplo), títulos de crédito, notas promissórias, ou qualquer documento que você poderia aceitar como pagamento, confiando que, depois, o tal documento seria aceito como pagamento de outro produto ou serviço por outra pessoa ou empresa.

fiatmoney

Figura 1 – Moedas fiduciárias (fiat money)

Por exemplo, você aceita um cheque de R$ 500,00 pois sabe que tem fundos e que poderá utilizá-lo para pagar outra coisa. Não importa que seja apenas um pedaço de papel sem valor próprio, você confia que essa nota será aceita por qualquer pessoa, instituição ou comércio do Brasil como uma forma de pagamento. O Real é uma moeda de curso forçado, ou seja, uma pessoa não pode se negar a aceitá-lo como método de pagamento. O governo garante assim o valor da moeda como meio de troca e consegue criar dinheiro sem precisar de um ativo – como ouro – para servir de lastro [2].

As Primeiras Moedas Ditas Virtuais: Quem Iria Imaginar?

O Bitcoin não foi a primeira moeda virtual. Na verdade, não está nem próximo de ser a primeira. Além disso, as primeiras moedas virtuais tinham, contraintuitivamente, existência física. Você precisa voltar até 1896 para encontrar a primeira, que era chamada Selo S&H e foi lançada pela empresa Sperry and Hutchins. Os selos S&H eram vendidos em postos de gasolina e em supermercados que os davam como bonificação aos compradores que podiam então resgatar mercadorias específicas em um catálogo da S&H. Nos anos 60, a empresa tinha emitido 3 vezes mais selos que o serviço postal dos EUA. Na década de 70, a S&H alterou seu curso de um modelo de negócios baseado em selos e começou a entrar em declínio. Isso ocorreu porque a competição de grandes corporações cortou o intermediário, que era a própria S&H.

4fd2fa5b73f4cc14622ef6804c4ed8e5

Figura 2 – Selos S&H

A próxima moeda virtual a causar entusiasmo teve início em 1981 quando a American Air Lines lançou o American Advantage (AAdvantage), que foi o primeiro programa de milhagens aéreas. Hoje, toda companhia aérea e até mesmo empresas de aluguel de carros e a maior parte dos hotéis (EUA) oferecem alguma versão do programa de milhagem. Em 2005, a revista The Economist estimou que o valor total das milhas não resgatadas valia mais que todas as cédulas de dólar em circulação. As milhas aéreas são vendidas a preços razoáveis por milha e podem ser gastas em um número crescente de estabelecimentos e em uma infinidade de serviços – até mesmo para pagar por funerais! Ao longo dos últimos dez anos, as companhias aéreas fizeram mais dinheiro vendendo essa moeda virtual para companhias de cartões de crédito e hotéis do que realmente fizeram pelos vôos em si.

Uma outra moeda que tem crescido rapidamente, embora pouco usual, está na África. Uma vez que poucas pessoas na África dispõem de uma conta bancária e as moedas locais têm imensas volatilidades, as pessoas estão se voltando para seus celulares, que têm uma significativa penetração de mercado e estão usando minutos pré-pagos como moeda. Isso se tornou um negócio de bilhões de dólares por ano. A maior parte dos comércios e dos logistas aceitam minutos pré-pagos de boa vontade. Existem até mesmo empresas como a Ezetop, em Dublin na Irlanda, para ajudar os clientes a comprarem e venderem minutos e enviá-los para qualquer lugar do mundo. Minutos podem ser enviados internacionalmente via Internet ou mensagens SMS e são aceitos em mais de 450 mil estabelecimentos em mais de 20 países.

Pensando assim, de forma tão abrangente, muitas coisas podem ser consideradas moedas virtuais desde que todos concordem com o valor atribuído à coisa que se tornou moeda: escambo, comércio de vale refeição e vale transporte (muito comum na década de 90 quando eram emitidos em papel), latas de leve-leite (comum na cidade de São Paulo também na década de 90) e até sanduíches de presunto no caso do Chaves.

Agora Sim, as Moedas Virtuais do Jeito que Você Imagina

Uma moeda virtual não é emitida por nenhum governo. Ela é emitida por qualquer entidade onde um conjunto de usuários concorde sobre qual valor ela tem. Pode-se concluir que as moedas virtuais não tem “valor real”, mas que valor uma moeda fiduciária emitida pelo governo oferece que está além de um valor combinado por todos os usuários? Em muitos aspectos, todo o dinheiro fiduciário somente se distingue do dinheiro virtual porque nós, usuários, concordamos em um valor relativamente estável.

O Bitcoin não é sequer a primeira moeda online. Esse título pertence à empresa E-gold, que foi fundada em 1996. E-gold era uma moeda virtual lastreada por ouro real, algo com o qual nem mesmo as moedas fiduciária podem contar hoje em dia. Era o mesmo que negociar a propriedade do ouro de forma anônima. Em seu pico em 2008, o E-gold tinha mais de 5 milhões de contas. Contudo, sistemas de segurança fracos contribuíram para seu desaparecimento em 2009. Beenz, Flooz e Qcoins eram moedas online que surgiram depois do E-gold, mas tiveram os mesmos problemas de segurança. No caso do Qcoins (China), houve problemas com o governo que causaram sua vida curta.

No final de 2008, duas novas moedas de alto potencial foram lançadas. Bitcoin e Facebook Credits. Ambas apresentaram propostas para resolver os problemas de segurança das tentativas anteriores, mas de maneiras totalmente distintas. O Facebook Credits enfrentou uma morte prematura em 2012, não por causa de segurança ou fraude, mas porque só podia ser gasto dentro do Facebook, que na época era bem menor do que é hoje.

facebook-credits

Figura 3 – Facebook Credits

Em outubro de 2008, sob o pseudônimo de Satoshi Nakamoto, Craig Wright lançou um artigo técnico na Internet [6] em que ele propôs uma versão puramente ponto-a-ponto do dinheiro eletrônico e que garantia a segurança através de sofisticada técnica de encriptação baseada em um modelo matemático. Assim nasceu o Bitcoin, uma criptomoeda segura e um sistema de pagamento online baseado em protocolo de código aberto que é independente de qualquer autoridade central.

images

Figura 4 – Bitcoin

No âmbito da moeda virtual Bitcoin, um blockchain é a estrutura de dados que representa uma entrada de contabilidade financeira ou um registro de uma transação. Cada transação (bloco) é digitalmente assinada com o objetivo de garantir sua autenticidade e garantir que ninguém a adultere de forma que o próprio registro e as transações existentes dentro dele sejam considerados de alta integridade [10] – esses são alguns dos pilares da segurança da informação. Essa idéia foi, provavelmente, inspirada no conceito de autoridades certificadoras utilizado no mundo dos certificados digitais. Essa segurança nas transações dificultava muito a cópia do dinheiro. O conceito de bloco é a fundação que alicersa o Bitcoin e é conhecida como Blockchain.

1-newfxaocasu-zm9glkmejw

Figura 5 – Blockchain

Em janeiro de 2009, o primeiro bloco, de codinome Gênesis, foi lançado e permitiu que a mineração inicial de Bitcoins surgisse.

A Mineração de Bitcoins

O processo pelo qual os bitcoins entram no mercado é mais parecido com o que ocorre com o ouro que, por sinal, também pode ser usado como moeda: tanto o ouro quanto os bitcoins são obtidos por mineração (do inglês, mining) [7]. Para minerar bitcoins é necessário um computador rodando um programa Bitcoin Miner (Minerador de Bitcoin) que esteja ligado em rede a um conjunto de outros computadores pertencentes a proprietários diversos ou organizações. Esse software gera os valores na conta de um usuário à partir de limites ajustados constantemente pela rede [7]. Esta rede tem nós dedicados à mineração e nós de instituições que negociam com a moeda virtual e que utilizam o mesmo software usado para mineração. Essa rede é descentralizada – não há um nó centralizador do processo. Ela é uma rede ponto-a-ponto, o que garante a não existência de uma autoridade ou algum tipo de governança que controle o processo de emissão e o valor da cotação.

Em intervalos controlados pelo software que administra o sistema e que está distribuído por todos os nós, é emitido um hash (sequência de bits gerada pelo algoritmo de criptografia) contendo um determinado valor criptografado. Tratei brevemente da função hash nesse artigo, mas lá o foco era como fazer isso programaticamente. A dificuldade em quebrar este hash – encontrar a chave que o gerou por criptografia – é ajustável. Ao ser lançado um novo hash, todos os nós dedicados à mineração se põem imediatamente a tentar decifrá-lo (quebrá-lo). Matematicamente, quebrar um hash significa encontrar os números primos que o geraram, o que é impossível de se fazer manualmente e demorariam décadas para fazer de forma automatizada com o poder computacional que temos. Porém, se alguém descobrir a solução da hipótese de Rieman, que é um dos problemas de Hilbert que ainda não foram solucionados, o mundo dos bitcoins entrará em ruínas. Quebrar o hash gerado é o desafio imposto aos mineradores de bitcoins.

O primeiro minerador que conseguir decifrar o hash recebe como recompensa um determinado número de bitcoins. Tão logo isto ocorra, aquele nó anuncia à toda a rede que quebrou o código e que aqueles bitcoins relacionados ao hash lhe pertencem. Assim que esta transação estiver registrada em todos os nós da rede, o que ocorre relativamento rápido, aquele feliz minerador pode fazer uso de seus bitcoins. A geração aleatória de hashes garante a escasses de moedas, o que inibe a ação de especuladores e a “inflação virtual”. A idéia da escasses nos remete aos tempos das moedas fiduciárias lastreadas por metais como o ouro.

cradle_psf

Figura 6 – Um paciente minerador

Referências

1. [https://www.youtube.com/watch?v=iHYjsOFkHn0]
2. [http://www.mundodosbancos.com/moeda-fiduciaria/]
3. [http://www.investopedia.com/terms/f/fiatmoney.asp?lgl=no-infinite]
4. [http://www.dummies.com/personal-finance/investing/how-the-fiat-system-works/]
5. [http://www.techtudo.com.br/artigos/noticia/2014/01/bitcoin-o-que-e.html]
6. [http://www.techtudo.com.br/noticias/noticia/2016/05/quem-e-satoshi-nakamoto-identidade-do-criador-do-bitcoin-e-revelada.html]
7. [http://www.techtudo.com.br/artigos/noticia/2014/01/bitcoin-a-mineracao-de-moedas.html]
8. [http://www.techtudo.com.br/tudo-sobre/bitcoin.html]
9. [http://computerworld.com.br/blockchain-o-que-e-e-como-funciona]
10. [https://letstalkbitcoin.com/blog/post/goodbye-mike-and-some-thoughts-about-bitcoin]
11. [https://dzone.com/articles/java-and-the-blockchain]

Anúncios
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: