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Perdido em Marte

O interesse da humanidade pelo planeta Marte remonta ao mundo antigo. Marte era o deus da guerra para os romanos – Ares para os gregos. Ele sempre era representado como um guerreiro com lança e escudo nas mãos, o que inspirava poder, mas também medo.

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Figura 1 – O planeta vermelho

Em vários aspectos, Marte se parece com a Terra – os dias de 24 horas, os canais escavados por rios e as estruturas que parecem monumentos são bastante atraentes para quem especula a existência de vida. Em A Guerra dos Mundos, o escritor H.G. Wells nos apresentou uma cultura marciana que tentou dominar a Terra. Em 1938, Orson Welles transmitiu um programa de rádio baseado na Guerra dos Mundos que causou pânico nas cidades da costa leste dos Estados Unidos.

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Figura 2 – Os trípedes mecânicos da Guerra dos Mundos

Essa concepção dos trípedes mecânicos explica porque alguns moradores de uma pequena cidade da costa leste, ao ouvirem a descrição feita por Welles, atiraram em uma caixa d’água pensando se tratar de um alienígena. Desde o início do cinema e do gênero ficção científica, Marte, devido à sua importância para os povos antigos e por certo misticismo mitológico, é o primeiro lugar em que cineastas e escritores pensam haver vida inteligente e até hostil quando estão concebendo suas criações.

Carl Sagan dedicou um episódio inteiro da série Cosmos para tratar do planeta Marte desde aspectos sobre a existência de vida às dificuldades de uma missão vinda da Terra. A ciência, por meio da sonda Viking da NASA, mostrou em 1975 que Marte não era habitado – pelo menos não por vida inteligente e também não encontraram vestígios de trípedes mecânicos – e em 2015 a sonda Curiosity descobriu a presença de água. O interesse por Marte continua em alta.

O filme Perdido em Marte é baseado no livro The Martian, de Andy Weir. Ainda não li esse livro porque realmente não me interesso por livros relativamente novos e badalados e porque tenho vários outros livros na fila para leitura. Nas livrarias, sequer olho para os livros que ficam em destaque próximos à entrada, mas pelo que li a respeito da história – precisão científica das tecnologias, probabilidade de ocorrerem os problemas apresentados e as descrições do planeta – retratada no filme, acho que agora vale a pena ler o livro.

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Figura 3 – Paisagem inóspita

Vi em algumas resenhas do livro que ele foi tratado como excessivamente técnico. A própria NASA afirma que algumas das tecnologias apresentadas são factíveis. Essas tecnologias estão dentro daquilo que a NASA realmente pretende utilizar em Marte daqui a algumas décadas. Para mim, tudo isso só conta a favor da história. Lembro-me das notas de rodapé do primeiro livro da série Operação Cavalo de Tróia que chegavam a ocupar uma página inteira para detalhar o funcionamento das tecnologias utilizadas e explicar alguns princípios científicos. Apenas os dois primeiros livros são realmente bons. Nos demais, o autor se perde em descrições de pessoas, paisagens, hábitos alimentares, religiosidade, etc. Mesmo assim, a trama do primeiro livro (Jerusalém) é incrivelmente envolvente. Vale a pena ler.

Resumidamente, Perdido em Marte conta a história de Mark Watney, membro da tripulação da missão Ares III cujo objetivo era fazer um trabalho de pesquisa em solo marciano no ano de 2035. Presumidamente morto depois de ter sido apanhado em uma tempestade, ele é deixado para trás enquanto o restante da equipe evacua o planeta antecipando assim o regresso à Terra. Watney encontra-se sozinho e abandonado apenas com alguns poucos equipamentos e provisões para um mês, que era a duração original da missão – uma nova missão só estava prevista para chegar à Marte quatro anos depois. Ele usa seu conhecimento científico, sua inteligência, seu treinamento, sua coragem e esperança para sobreviver e tentar enviar uma mensagem para casa mesmo sabendo existirem poucas chances de resgate.

Quando Hollywood adapta um livro, normalmente personifica o mal, pois não se dá bem quando o inimigo não é retratado como uma pessoa ou algum tipo de entidade inteligente. Perdido em Marte mostra a luta pela sobrevivência em um ambiente inóspito, mas em nenhum momento surge um antigo espírito do mal, um deus marciano, um alienígena caçador de crânios ou um monolito que ganha vida e sai correndo atrás do astronauta. Esse filme não tem aquela ingenuidade quase arrogante de Interestelar. Me lembro de uma cena em que o astronauta resolve dar uma chegadinha nas proximidades de um buraco negro que deveria estar só a alguns milhares de anos luz de distância. Só terminei de assistir esse filme para poder formar minha opinião, mas admito que parei de prestar atenção depois de algumas forçadas de barra. Me lembrou até uma cena do começo do Star Trek IV: The Voyage Home onde o capitão Kirk, no comando de uma espaçonave roubada dos Klingons, ordena que o piloto, o senhor Sulu, dê algumas voltas no Sol para obter a velocidade necessária para uma viagem ao passado!

Em muitas ocasiões, o conhecimento e a engenhosidade de Watney são colocadas à prova. Nesses momentos, fui obrigado a me lembrar daquela cena da Apollo XIII em que os técnicos da NASA conseguiram descobrir como fazer um filtro de CO2 quadrado se encaixar em um buraco redondo. Tudo que os astronautas da Apolo XIII e o Mark Watney fizeram têm fundamento científico, mas somos obrigados a dar-lhes o selo MacGyver pelo conjunto das obras:

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Figura 4 – Selo MacGyver

Gostei bastante da forma como Watney lidou com os problemas imediatos e os de longo prazo. Após curar suas feridas, ele fez um balanço do que estava disponível no habitat. A missão deveria durar um mês para seis astronautas, mas ele deveria sobreviver alguns anos de quisesse ser resgatado. A combinação de sua formação em Botânica, excrementos humanos, o solo marciano e a capacidade de produzir água utilizando hidrogênio e combustível de foguete permitiu que ele montasse uma estufa para cultivar batatas. É a resposta da ciência ao selo MacGyver.

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Figura 5 – Plantando batatas em Marte

Com o apoio do Rover, ele foi até o local de “descanso” da Pathfinder, cuja bateria acabou em 1997. Ele a trouxe para as proximidades do habitat e a religou. Os cientistas em Terra ficaram estarrecidos quando receberam as primeiras comunicações. Ele escreveu uma pergunta em uma placa e as respostas “Sim”e “Não” em outra esperando que a câmera omnidirecional da sonda apontasse a resposta. Como as mensagens demoram algumas dezenas de minutos para trafegar a distância que separa os planetas, ele logo percebeu que precisaria de uma forma mais eficaz de se comunicar. A solução foi engenhosa: ele desenhou um círculo em volta da sonda e fincou placas que representavam as posições da tabela ASCII!

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Figura 6 – Pathfinder

Como desenvolvedor de software, chamou minha atenção a parte do filme em que Mark recebe instruções da equipe original da Pathfinder de como integrar os sistemas da sonda aos do Rover, que era mais moderno. A integração não foi apenas física. No filme, ele disse que bastava modificar algumas instruções, o que me parece simples demais. Para integrar os sistemas, ele deveria ter escrito um driver, talvez em linguagem C, e compilado no computador de bordo do Rover para que ele pudesse enviar mensagens de texto utilizando o sistema de comunicação da Pathfinder. Enfim, é só uma hipótese.

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Figura 7 – Rover

No final do filme, Mark Watney fala a um grupo de candidatos a astronauta:

(…) A outra pergunta que mais escuto é quando eu estava sozinho lá em cima, eu pensei que fosse morrer? Sim, com certeza. Precisam saber disso ao ir lá, porque isso acontecerá com vocês. Isso é o espaço. Ele não colabora. Em algum momento, tudo será desfavorável e você dirá: ‘É isso. É assim que vou morrer’. Vocês podem aceitar isso ou podem começar a trabalhar. Isso é tudo. Você apenas começa. Faz a matemática, resolve um problema. E resolve o próximo, e depois outro. E se solucionar problemas o bastante, você volta.

Fatos Científicos e Ficção Científica

A viagem espacial é um empreendimento perigoso. O risco da missão é tão alto que a margem de erro é quase zero. A NASA pretende enviar pessoas para Marte na década de 30, mas faltam mais estudos, conclusões e tecnologias que possibilitem a sobrevivência em Marte e a volta para casa em segurança. Ao longo da história da pesquisa espacial, tudo o que já fizemos e aprendemos foi trazido de volta à Terra para beneficiar a humanidade.

Esse filme merece mais do que apenas minha opinião, pois essa não é a primeira tentativa de retratar um futuro possível, mas certamente é a que mais chegou perto. Encontrei algumas análises interessantes que vou compartilhar. No vídeo Pouso Forçado em Marte, cientistas americanos analisam a problemática de uma missão à Marte controlada pela Terra. Como os astronautas têm maior conhecimento do que ocorre em campo, eles devem tomar suas próprias decisões e os técnicos na Terra devem ser apenas o apoio. Isso se verificou no filme e foi bem convincente.

O site IFLScience destacou a precisão científica do que foi apresentado na história. A NASA de fato está desenvolvendo muitas das tecnologias utilizadas no filme. A iniciativa privada, representada pela SpaceX, tem feito pesquisas com o objetivo de transformar Marte em um “backup” para a humanidade, o que tornaria os seres humanos uma espécie multiplanetária.

1. A tempestade de areia. A baixa pressão atmosférica não propicia tempestades – pelo menos não como aquela observada no filme. Nesse documentário, afirma-se que o vento em Marte é sentido com apenas 10% da intensidade sentida na Terra: um vento de 100km/h na Terra não desmancharia seu cabelo em Marte.

Fato ou Ficção? Ficção

2. Dinâmicas orbitais. Com a tecnologia atual, uma viagem da Terra à Marte demora nove meses, o que poderia invalidar resgate em caso de comprometimento das missões.

Fato ou Ficção? Fato

3. Solo marciano. O solo de Marte possui minerais e componentes químicos básicos que poderiam viabilizar o plantio. Hoje, a NASA planta alface em altitudes baixas na ISS (International Space Station). Na história, o astronauta utiliza seu próprio excremento combinado com água para plantar batatas.

Fato ou Ficção? Fato

4. Radiação. Marte não tem atmosfera a milhões de anos. Sem atmosfera, a radiação solar incide diretamente no solo marciano. Muito tempo de exposição à radiação sem a proteção adequada pode aumentar as chances de contrair câncer. Em uma exploração à Marte, é mais provável que os astronautas fiquem abaixo da superfície para se protegerem da radiação.

Fato ou Ficção? Inconclusivo

5. Decolando de Marte. Ainda não há tecnologia capaz de possibilitar a ascensão à partir do solo marciano mesmo que lá a gravidade seja apenas 30% à da Terra e também não se pensou nos aspectos logísticos de resgate por uma nave na órbita de Marte.

Fato ou Ficção? Por enquanto, ficção

6. Tornados em Marte. Mesmo com a atmosfera fina, Marte pode produzir tornados gigantes devido à ação do Sol.

Fato ou Ficção? Fato

7. Comunicação com a Terra. Watney realmente poderia utilizar o sistema de comunicação da Pathfinder para entrar em contato com a Terra.

Fato ou Ficção? Fato

8. Gravidade em Marte. Marte tem apenas 30% da gravidade da Terra. A forma como um astronauta se locomoveria lá é diferente da forma como se moveria na Terra.

Fato ou Ficção? Ficção

9. Habitat. Um módulo inflável será acoplado à ISS. Essa tecnologia, com algumas adaptações, poderia ser utilizada para criar um habitat viável. Astronautas passam meses em habitats para que seja possível coletar dados do comportamento humano em ambientes isolados visando simular missões futuras.

Fato ou Ficção? Fato

10. Reciclagem e extração de água. A NASA tem tecnologia para reciclar todo o líquido utilizado na ISS, mas ainda faltam estudos para saber como tratar a água de Marte e como os líquidos se comportam na microgravidade de lá. Lembre-se: demora nove meses para levar água da Terra.

Fato ou Ficção? Por enquanto, ficção

11. Geração de oxigênio. Watney tem um dispositivo que gera oxigênio à partir de dióxido de carbono. Na ISS, há um gerador que separa o oxigênio da água através de eletrólise.

Fato ou Ficção? Fato

12. Traje espacial. No filme, vê-se o astronauta trabalhando durante muito tempo e empreendendo longas jornadas em solo marciano. Para uso em Marte, trajes devem ser flexíveis, confortáveis e confiáveis. A NASA está fazendo pesquisas, mas ainda não encontrou os materiais necessários e nem a melhor forma de se lidar com o traje – hoje, trajes espaciais só podem ser vestidos com a ajuda de outras pessoas.

Fato ou Ficção? Ficção

13. Rover. Para expandir sua capacidade de locomoção, os astronautas precisarão de rovers, que são veículos de exploração espacial projetados para moverem-se na superfície de um corpo celeste. Eles podem ser robôs controlados remotamente – alguns com certa autonomia – ou veículos de transporte para os astronautas. A NASA tem inclusive um rover muito parecido com aquele do filme.

Fato ou Ficção? Fato

14. Propulsão Iônica. O projeto NEXT (NASA’s Evolutionary Xenon Thruster) produziu um sistema de propulsão iônica que pode ser utilizado em missões futuras. No filme, a população da Hermes utilizou propulsão iônica para percorrer a distância que separa os planetas. Utilizando eletricidade, esse sistema expulsa ions de gás argônio ou xenônio em alta velocidade e produz deslocamento, o que reduz o consumo de combustível.

Fato ou Ficção? Fato

15. Painéis Solares. Bem, não há posto de gasolina em Marte. Na ISS, painéis solares geram 84 dos 120 kw de eletricidade. A estação não precisa de tanta energia, mas a redundância é importante em caso de falhas.

Fato ou Ficção? Fato

16. RTG (Radioisotope Thermoelectric Generator). A NASA já utilizava esses geradores nas missões Apollo e continuará a utilizá-los nas próximas décadas. RTGs são baterias espaciais que convertem calor proveniente do decaimento do plutônio-238 em eletricidade. A radiação natural de Marte é mais prejudicial à saúde do que aquela produzida por um RTG. Um sistema de geração de energia confiável capaz de sustentar uma missão à Marte deve possuir uma combinação de sistemas com base em radioisótopos, painéis solares, células de combustível e fissão nuclear.

Fato ou Ficção? Fato

Referências

1. [http://omundodasetimaarte.blogspot.com.br/2015/10/perdido-em-marte.html]
2. [http://meiobit.com/327223/perdido-em-marte-the-martian-review-quase-sem-spoilers/]
3. [http://www.iflscience.com/space/how-accurate-martian-9-things-movie-got-right-and-wrong/]
4. [https://www.nasa.gov/feature/nine-real-nasa-technologies-in-the-martian/]
5. [O Universo – Pouso Forçado em Marte: https://www.youtube.com/watch?v=T4CqS01VJIU ]

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