Início > Filosofia > O Dilema Moral do Criador Sobre a Criatura

O Dilema Moral do Criador Sobre a Criatura

O Prof. Ricieri nos contou a história de sua paixão pelo lançamento de foguetes que vem desde sua adolescência na década de setenta e foi embalada pelas conquistas espaciais soviéticas e americanas. Seu empenho e dedicação culminou com o lançamento de um foguete que levava Belo Antônio, o primeiro “astronauta” brasileiro, que voltou vivo de sua missão. Bem, Belo Antônio era um rato, mas e daí? Os russos enviaram uma cadela.

Scrat_in_space

Não, esse não é um rato e muito menos o Belo Antônio. Ainda jovem, o professor esteve na presença de Von Braun, o criador do famoso míssil V-2 utilizado pelos nazistas na Segunda Guerra e pelo Saturno-V, o foguete que levou o homem à Lua pela primeira vez em 1969. Esse post não é para puxar o saco do professor, mas sim para dar destaque àquela parte nada gloriosa do trabalho do cientista.

O cientista é um amante do conhecimento que observa a natureza e tenta imitá-la, mas diferente do filósofo, que adquire o conhecimento através da lógica e da retórica, o cientista utiliza o método científico para validar a consistência dos fenômenos observados antes que o conhecimento deles extraído seja aceito e se torne a base de novos conhecimentos. Para realizar pesquisas, é necessário que alguém pague a conta, e isso faz com que seu trabalho se alinhe de forma forçada às expectativas do dono do capital. Isso pode até ser perigoso se quem paga é o governo de turno e este é orientado por fanatismo religioso ou fanatismo de esquerda, que também é chamado de comunismo.

Von Braun era um engenheiro aeroespacial, mas o início de sua notória carreira se deu no momento mais turbulento do século vinte às sombras da megalomania de um tirano. O Prof. Ricieri, já como professor do ITA e atuando no CTA, viu sua contribuição para a ciência ser lançada contra os inimigos de Israel na década de oitenta.

Army_mlrs_1982_02

O Prof. Ricieri sabia que suas invenções seriam utilizadas para fins bélicos? Provavelmente sim. Von Braun sabia que seus mísseis seriam atirados na Inglaterra? Certamente. Eles poderiam fazer algo para impedir? Não dependia deles. Eram homens da ciência e não políticos (estadistas e diplomatas), militares (estrategistas e guerreiros) ou filantropos (humanistas).

Em maior ou menor grau, sabendo ou não, não temos controle absoluto sobre a utilização daquilo que criamos. Um carro pode ser utilizado para matar pessoas e para facilitar o suicídio e é claro que isso deixaria Ford horrorizado. Pode-se utilizar a eletricidade para torturar e isso enojaria Benjamin Franklin e Nikola Tesla, mas talvez não Thomas Edison visto que para vencer Tesla na disputa das correntes ele inventou a cadeira elétrica. É por isso que não concordo com o estúpido Estatuto do Desarmamento. Uma arma de fogo tem por função principal o uso coercitivo ou tirar vidas, mas você também pode utilizá-la para bater um prego na parede. O problema está na intenção de matar, que não é inerente à arma – ela não mata sozinha. Se uma pessoa quiser tirar a vida de outra, ela pode se utilizar de uma peça de LEGO ou até de um caroço de abacate!

Minha infância, assim como a de muitas pessoas, foi marcada pelas pipas. Eu gostava muito de fazer pipas com formatos e colagens diversas só para vê-las “ganhando vida em pleno voo”.

pipas

Cheguei a vender pipas, pois as que eu fazia eram disputadas pelos vizinhos e vi aí uma oportunidade. Claro que eu sabia que todos, simplesmente todos aqueles que compravam minhas pipas iriam passar cortante (cerol) na linha visando cortar a linha de outras pipas. Parei de fazer pipas por causa disso? Claro que não. Era o que eu gostava de fazer independente do uso que outros iriam fazer.

Howard Roark, personagem do filme The Fountainhead, uma adaptação do livro de Ayn Rand, fala em sua própria defesa perante o juiz em seu famoso discurso final e apresenta as justificativas para ter implodido o prédio que ele, um arquiteto, projetou:

(…) Acreditava-se que o meu trabalho pertencia aos outros, para fazer o que quisessem com ele. Eles tinham um requerimento sobre mim sem o meu consentimento – que era meu dever atendê-los sem escolha ou recompensa.

Agora você – o juiz – sabe porque eu dinamitei Courtland – um edifício. Eu projetei Courtland. Eu o tornei possível. Eu o destruí. Eu concordei em projetá-lo com o propósito de o ver construído como eu desejava. Esse foi o preço que estabeleci para o meu trabalho. Ele não foi pago. Meu prédio foi desfigurado ao capricho de outros que tomaram todos os benefícios do meu trabalho e nada me deram em troca.

Eu vim aqui para dizer que eu não reconheço o direito de ninguém para um minuto da minha vida, nem a qualquer parte da minha energia, nem a nenhuma de minhas realizações – não importa quem faça o pedido!

Tinha de ser dito: O mundo está perecendo por causa de uma orgia de auto-sacrifício. Eu vim aqui para ser ouvido em nome de todos os homens independentes que ainda restam no mundo. Eu queria dizer meus termos. Eu não quero trabalhar ou viver de quaisquer outros.

Não somos donos do que produzimos se for parte direta ou indireta de um trabalho para o qual fomos pagos ou subsidiados. Muitas empresas deixam isso claro no contrato de admissão. Isso não é tão claro quando o trabalho realizado tem um valor intelectual agregado como no caso dos foguetes, mas é bem claro em linhas de produção e é por isso que nesses casos nem se questiona. Já imaginou um funcionário da Nestlé se achando no direito de tomar o chocolate da mão de uma criança só porque foi ele quem apertou o botão de ligar da esteira de produção pela manhã? E se eu arrebentasse a linha das pessoas que passassem cortante só porque não concordo que minhas pipas fossem utilizadas para esse fim? Ninguém mais compraria minhas pipas.

Mesmo contrariados, nada podemos fazer. A resposta ao dilema moral que nos é imposto mostra nosso entendimento do capitalismo, nosso repeito ao convívio social e como nos vemos em relação ao mundo. Agir contra esses valores pode trazer consequências ruins – no caso de <strongHoward Roark, uma pessoa morreu na implosão do prédio. Os esquerdistas são ainda piores: não criam nada, vivem do que o capitalismo oferece, não contribuem de forma relevante para o país e ainda se acham no direito de destruir o patrimônio público e o privado.

Anúncios
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: