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O que Você Faria se o Dia Sempre se Repetisse

Um dia desses assisti ao filme o Feitiço do Tempo. Não é um filme muito bom, mas me fez refletir sobre nosso cotidiano como uma espécie de repetição do tempo.

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Um repórter (Bill Murray) de televisão que faz previsões meteorológicas vai a uma pequena cidade fazer uma matéria especial sobre o celebrado “Dia da Marmota”. Ele é uma pessoa sarcástica, mal educada e inculta, mas é inteligente e muito eloquente. Pretendendo ir embora da cidadezinha o mais rápido possível, ele inexplicavelmente fica preso no tempo, condenado a vivenciar para sempre os eventos daquele dia. Às 06:00, o dia anterior se reiniciava e apenas o repórter tinha consciência disso.

As primeiras reações dele na primeira vez em que o dia se repetiu são de estranhamento. Ele acha que se trata de um Déjà vu e acaba aceitando a repetição daquele dia como se fosse algo psicológico. À medida que os dias se repetem e ele se conscientiza de sua posição naquele microuniverso em repetição, nasce nele uma necessidade de fazer coisas diferentes para não se entediar.

Em um desses dias, ele sai para beber à noite e fica amigo de dois bêbados. Um deles, com toda a sabedoria e autoridade moral que o álcool lhe conferia, aconselhou: “se eu vivesse o mesmo dia todos os dias, faria o que me desse na telha!”. É nesse momento que os valores éticos que regem a vida em sociedade abandonam o repórter. Ele acorda, beija a dona da pousada em que está hospedado, dá um soco em um “amigo” do colégio, come em excesso, rouba e utiliza informações que vai colhendo em cada um dos dias seguintes para conquistar uma mulher.

Então, ele volta sua atenção para sua produtora, que além de inteligente e competente, é bela. Era a primeira vez que trabalhavam juntos. Quando a viu, sentiu algo por ela, mas aquilo que ele sentiu apenas resvalou na carapaça que revestia seu coração amargo. Ele usou o conhecimento adquirido nas repetições seguintes para conquistá-la. Ele sabia várias coisas sobre ela e utilizou todas para impressioná-la, mas por mais que alterasse elementos importantes em sua “estratégia de ataque”, ela percebia as más intenções do repórter e o refutava de várias formas diferentes – e até engraçadas.

Com o tempo, sua consciência começa a torturá-lo. Ele tenta se matar de várias formas diferentes: se joga de um prédio, na frente de um caminhão, etc. Em uma das vezes, ele sequestra a marmota e os dois se lançam em um abismo com um carro roubado. Invariavelmente, ele acordava às 06:00 do dia seguinte e o novo velho dia se reiniciava. Ele começa a se sentir como um deus. Em princípio, entendi que essa constatação era pelo conhecimento e pelo poder adquiridos, mas na verdade o importante ali era o tédio de viver restrito a um microuniverso que expira e recomeça do mesmo ponto.

Ele acaba aceitando o inevitável. Inconscientemente, ele percebe que embora pareça, é impossível que os dias sejam iguais, pois querendo ele ou não, ele era diferente daquele repórter que viveu o dia anterior. Ele aproveita essa chance para aprender a tocar piano, “devorar” livros e ajudar as pessoas daquela pequena cidade, pois ele sabia exatamente onde um acidente iria ocorrer e onde haveria uma velhinha precisando de alguma ajuda.

Sem perceber, ele se tornou uma pessoa sábia que tocava profundamente o coração das pessoas com um simples olhar. A produtora, que não o suportava, se apaixonou por aquele homem que parecia tão amável, culto e experiente. No fim do dia, ele tocou Rhapsody on a Theme of Paganini, de Rachmaninov, na festa de comemoração do dia da marmota e a produtora não teve mais dúvidas sobre os sentimentos que ela nutria pelo repórter. No dia seguinte, ele acordou como sempre em sua cama na pousada da cidadezinha, mas com a produtora ao seu lado e percebendo que aquele realmente era um novo dia.

O dia que se repete é uma metáfora para a vida que levamos. Todos os dias levantamos, escovamos os dentes, tomamos o café, corremos atrás do ônibus, muitas vezes fazemos coisas desinteressantes no trabalho, fazemos o caminho inverso e dormimos para acordar no dia seguinte e fazer tudo isso novamente. A vida passa a valer a pena quando estamos dispostos a nos modificar. Se alguém te insultou, não retribua o insulto; se não conseguiu entender determinado assunto, vá atrás do conhecimento; se quer aprender a tocar guitarra, aprenda; se quer conhecer Machu Picchu em cima de uma Lhama, vá e não espere o dia seguinte para ir ou você nunca irá. Não se condene à eterna repetição da mesmice. Caso contrário, o único dia diferente será aquele marcado pela sua morte.

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