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A Hierarquia da Discordância

Leandro Karnal palestrou sobre a morte do diálogo asfixiado pela adjetivação. Segundo ele, a adjetivação em um diálogo é um indício de que as pessoas pararam de pensar e ouvir o contraditório e mudaram o foco da busca pelo entendimento para a busca da vitória na discussão. Nesse ponto, as pessoas se acham donas de verdade e a discussão é uma ferramenta de imposição de pontos de vista. Isso é bastante comum em brigas de casais.

Li um artigo interessante que foi inpirado no orginal How to Disagree, de Paul Grahan. Preocupado com o baixo nível intelectual das discussões na Internet, Grahan propôs uma classificação dos argumentos (conjunto de proposições que remetem a uma conclusão) do mais baixo e irracional – base da pirâmide – ao mais alto, consistente e racional – topo da pirâmide:

Grahams_Hierarchy_of_Disagreement.svg_

Olhando para os níveis mais baixos da pirâmide não pude deixar de notar uma relação entre eles e os estratagemas da dialética erística de Arthur Schopenhauer presente no tratado póstumo A Arte de Ter Razão. Esse tratado não é sobre lógica e nem sobre a verdade, mas sim sobre a arte de ganhar uma discussão fazendo uso dos truques ou artimanhas dos quais a natureza humana se utiliza para esconder os próprios defeitos.

Revisitei o original do Paul Grahan, mas como os exemplos desse artigo eram bons, apenas reescrevi as explicações de alguns dos níveis e alterei um pouco alguns exemplos:

Nível 0: Xingamento (Name-calling)

É a forma mais baixa de discordância em uma discussão:

Você é um idiota!

Você é racista!

Ofensas mais sofisticadas também entram nessa categoria.

Esse bloqueiro apenas replica informação.

Nível 1: Ad-hominem

Consiste em desviar o foco da tese para o oponente. Ataca-se sua credibilidade ou sua isenção para opinar sobre algo:

É claro que você defende liberdade de imprensa. É um jornalista!

Nível 2: Resposta ao tom (Responding to Tone)

Consiste em atacar a forma (texto, maneira de se expressar) e não o conteúdo (idéia):

Quando li a palavra “inceto” parei de lei e o mandei aprender a escrever.

Nível 3: Contradição (Contradiction)

A partir desse nível, passamos a falar de discordâncias que já não são desonestas e podem ou não ter algum potencial de contribuição positiva ao debate. A mais simplória delas é a contradição, que consiste na mera afirmação de uma ideia contrária à do texto original.

O autor diz que houve uma ditadura no Brasil, mas todos sabemos que não houve.

Aquela cientista diz que o melhor combustível é o etanol, mas na verdade é o hidrogênio.

Mesmo não sendo uma forma desonesta de discordar, a contradição raramente contribui com o debate. Sem apresentar argumentos sólidos, a afirmação apenas se posiciona como alternativa à proposição original, sem rebatê-la.

Nível 4: Contra-argumento (Counterargument)

É uma forma de discordância superior às anteriores e com maior potencial para afetar positivamente a discussão em alguns casos. Consiste em uma forma mais sofisticada de contradição que confronta o conteúdo da proposição original com argumentos sólidos e logicamente sustentáveis.

Aquele artesão disse que os tapetes vendidos na Rua 25 de Março vêm da China e são péssimos, feitos em indústrias com condições precárias e sem padrão de qualidade. Mas quando fui à China, conversei com vários artesãos locais e eles me mostraram seu processo, totalmente manual e extremamente cuidadoso, resultando em tapetes de altíssima beleza e qualidade, conforme você pode conferir neste exemplar que eu trouxe de lá na ocasião.

O problema com esse nível de discordância é que, apesar de apresentar bom embasamento, ele não ataca de fato as afirmações feitas pelo autor original. No exemplo, o contra-argumentador apenas mostra que existem na China artesãos que fabricam bons tapetes, mas nada diz sobre a afirmação original que acusava especificamente os tapetes vendidos na Rua 25 de Março e oriundos de manufaturas industriais.

Nível 5: Refutação (Refutation)

Consiste em um tipo contra-argumento com contribuição real ao debate, pois ataca um ponto relevante da ideia original.

Em sua coluna, onde se diz contrário à adoção de crianças por casais gays por violar os preceitos cristãos, o articulista diz em certo ponto que a homossexualidade é um comportamento social exclusivamente humano. Mas ela já foi observada também em diversas espécies de mamíferos e outros vertebrados, e até mesmo em artrópodes, conforme documentado pelos pesquisadores Bruce Bagemihl e Paul Vasey em seus trabalhos, além de outros estudiosos.

A refutação derruba uma parte relevante da proposição original. O único problema é que o ponto refutado não é central ao argumento defendido pelo autor, de forma que sua refutação não o rebate completamente. No exemplo, o trecho citado sobre a exclusividade humana do comportamento homossexual é rebatido, mas como sua importância era secundária e o ponto central do artigo era a violação dos preceitos cristãos, a refutação não é suficiente para derrubar o raciocínio como um todo.

Nível 6: Refutação do Ponto Central (Refuting the Central Point)

Consiste em refutar o ponto central da ideia defendida pelo adversário. Uma vez refutado o ponto central, toda a argumentação precisa ser abandonada ou revista.

O ativista defende que os seres humanos devem abolir a carne de sua dieta, pois a anatomia e fisiologia humanas, especialmente nosso padrão de dentição, a composição de nossa flora intestinal e a ausência de garras mostram que somos biologicamente herbívoros. Porém, as evidências mostram o oposto. Estudos sobre a dentição de mamíferos como os conduzidos por Van Valkenburgh em 2007 e o livro de Harvey Pough e outros de 2008 mostraram que a configuração da mandíbula e do maxilar dos seres humanos é coerente com a encontrada em espécies onívoras, apresentando um padrão misto de dentes pontudos, laminares e achatados. Outro estudo de 2008, conduzido por Jeffrey Gordon, mostrou que a diversidade microbiana de nossa flora intestinal é similar a de primatas onívoros como lêmures e bonobos, e significativamente diferente da encontrada em espécies estritamente herbívoras. Sobre as garras, pode-se dizer que não são determinantes do tipo de dieta, já que animais dotados de garras como preguiças, esquilos e iguanas apresentam dieta herbívora e, por outro lado, há primatas carnívoros como o tarsius que não possuem garras. Esse conjunto de evidências independentes nos leva a concluir que as razões apresentadas pelo ativista para justificar sua posição não se sustentam.

Note que a exposição acima reúne todos os requisitos desejáveis a uma boa refutação. Visa ao conteúdo da ideia original e não ao seu autor, identifica corretamente os argumentos apresentados e centraliza esforços em atacar especificamente seus pontos centrais, apresentando evidências sólidas e independentes e apresentando as referências sobre todos os trabalhos citados.

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