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A Arte de Ter Razão

A Arte de ter Razão é um tratado escrito por Arthur Schopenhauer que apresenta os 38 estratagemas de sua dialética erística. Esse tratado não é sobre lógica e muito menos sobre a busca da verdade, mas sim sobre a arte de ganhar uma discussão fazendo uso dos truques ou artimanhas dos quais a natureza humana utiliza para esconder seus defeitos. Cabem algumas definições antes de prosseguirmos:

Dialética: em sentido bastante genérico, oposição, conflito originado pela contradição entre princípios teóricos ou fenômenos empíricos.

Erística: é a arte ou técnica da disputa argumentativa no debate filosófico, empregada com o objetivo de vencer uma discussão e não necessariamente de descobrir a verdade de uma questão.

Sofisma: argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade, que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa.

A dialética erística considera influenciar e tirar proveito das pessoa que estão assitindo à discussão. Há argumentos que funcionam melhor frente a um perfil de público e outros que funcionam melhor para outro perfil. Antes de começar a discussão com seu adversário, conheça seu público e defina sua estratégia de influenciação do público.

Achei o livro do Schopenhauer bem didático e recomendo a leitura. Com base em um vídeo rico em exemplos que encontrei, separei os 14 estratagemas que descrevo abaixo. Agrupei alguns deles seguindo a orientação daquele mesmo vídeo porque eles são fortemente inter-relacionados. Nos exemplos, quando cabível, identifiquei nas falas a tese do adversário e a estratégia que você poderia utilizar para refutá-la.

1. Distorção

Consiste em distorcer a tese e atacar a distorção e não a tese quando você não sabe como contra-argumentar a tese. A plateía terá a impressão de que você refutou toda a tese. A defesa para esse estratagema é recolocar a questão. Essa estratégia tem três derivações:

1.1. Ampliação indevida

Consiste em generalizar a tese e atacar os casos em que ela não está contida.

Ex.:

Adversário: Eu sou a favor da legalização da maconha porque esta planta pode ser utilizada para fins medicinais
Você: Você já pensou nos efeitos que a legalização da droga terá na sociedade?

1.2. Mudança de modo

Consiste em transformar uma afirmação do oponente que era relativa ao contexto em absoluta.

Ex.:

Adversário: Os professores de inglês não sabem dar aula.

Você: Quer dizer que você está dizendo que os professores do Brasil são ruins?

1.3. Homonímias

Consiste em utilizar a mesma palavra pode ser empregada em sentido diferente daquele da tese.

Ex. 1:

Adversário: Eu sou a favor das olimpíadas no Brasil porque com as olimpíadas nós podemos atrair patrocinadores que investirão e melhorarão o esporte nacional.

Você: O esporte brasileiro deveria ser outro, como a educação ou a saúde.

Ex. 2:

Adversário: Todos temos que ter liberdade de expressão.

Você: Se todo mundo for livre, isso aqui vai virar uma zona.

Ex. 3:

Adversário: A cultura política do Brasil é não saber votar e não acompanhar o candidato.

Você: Por que você acha que a cultura do Brasil é inferior à dos outros povos?

2. Uso de pré-silogismos

O maior erro que você pode cometer em um debate é começar expondo suas conclusões (deduções). Deve-se guardar essa vantagem, pois seu adversário não sabe onde você quer chegar ao expôr suas testes. Você deve fazer com que ele concorde com as premissas uma a uma para que a conclusão seja irrefutável. Caso contrário, o adversário não aceitará suas premissas e te impedirá de chegar à conclusão. Você deve apresentar as premissas de forma confusa ou desordenada para esconder seu verdadeiro objetivo.

Ex.:

Todo o homem é mortal. Sócrates é homem. Então, Sócrates é mortal

3. Uso de perguntas

Essa estratégia foi muito utilizada por Sócrates. É a arte de esconder as perguntas que realmente importam – aquelas que irão embaraçar o adversário – em meio a muitas outras perguntas de menor importância ou irrelevantes.

Ex. 1:

Você: Você concorda com a afirmação de que todo o homem é mortal?

Adversário: Sim.

O adversário fica com a impressão que ele venceu essa parte da discussão. Para fazer o adversário concordar com a legalização da maconha utilizando perguntas, comece pelas perguntas irrelevantes para o ponto central:

Ex. 2:

Você: Você concorda que a maconha colombiana é mais pura que a brasileira?

Adversário: Sim.

Você: Você concorda que se não houvesse fiscalização o preço de venda da maconha seria menor?

Adversário: Sim.

Em meio a perguntas como essas faça uma pergunta relevante:

Você: Você concorda que as plantas poderiam carregar propriedades medicinais?

Adversário: Sim.

Com essa resposta, o adversário está admitindo indiretamente que a legalização da maconha é aceitável se esta apresentar propriedades medicinais.

4. Jogar pistas falsas

Para os casos em que você percebe que seu adversário responde da mesma forma – afirmação ou negação – a uma série de perguntas. A discussão gira em torno das premissas.

Ex.:

Você: Você acha que a maçã é uma fruta?

Adversário: Sim.

Você: Você acha que o melão é uma fruta?

Adversário: Sim.

Você: Você não acha que a laranja é uma fruta?

Adversário: Sim.

Preste atença à pergunta na negativa explorando a resposta automática “sim” e causando contradição e posterior embaraço ao adversário.

5. Petição de princípio oculta

Também chamada de argumento circular. É quando se chega a uma conclusão que só é possível alcançar porque ela já foi admitida como concluída antes da própria conclusão. Da-se a impressão de ter provado tanto a premissa quanto a conclusão, mas como uma depende da outra, não se prova nem uma nem outra.

Ex. 1:

Deus é bom porque faz o bem.

Nesse exemplo, o argumento circular consiste em questionar se Deus é bom porque faz o bem ou se faz o bem porque é bom. Não se chega a lugar algum porque a conclusão “faz o bem” não está provada, mas deve ser aceita anteriormente. Seria o mesmo que dizer “Deus é bom porque é bom” ou “Deus é Deus”.

Ex. 2:

Três é igual a três

A construção é logicamente correta, mas é inútil porque não acrescenta nada à discussão.

5.1. Primeira dica para ocultar o argumento circular

Trocar uma palavra por outra.

Ex. 1:

Descartes: Deus é perfeito. Eu sou imperfeito. Como pode um ser imperfeito pensar o perfeito se tudo que o ser imperfeito pensa é imperfeito? Mas eu sou capaz de pensar o perfeito. Portanto, Deus existe.

O argumento circular está em trocar a palavra “Deus” pela palavra “perfeito” e afirmar que Deus é perfeito sem saber se ele existe. Lê-se a premissa como Deus é Deus. Ou seja, deve-se aceitar que ele existe e que a conclusão vem antes.

Ex. 2:

Santo Anselmo: Pense em uma coisa grande. Agora pense em uma coisa muito grande. Em seguida pense na maior coisa de todas. A maior coisa que existe deveria ser a maior em seu pensamento e na realidade. Portanto, Deus existe.

Se não sei se Deus existe, como ele pode ser a maior coisa na qual posso pensar?

5.2 Segunda dica para ocultar o argumento circular

Transformar uma parte do argumento em causa e a outra uma consequência.

Ex. 1:

Deus existe porque está escrito na bíblia. A bíblia é a palavra de Deus.

Coloca-se Deus como consequência da bíblia e o contrário também é válido, pois é um argumento circular.

6. Salto indutivo

Consiste em concluir uma ideia geral à partir de casos particulares que não se pode demonstrar que conduzem a essa ideia geral.

Ex. 1:

Os deputados A, B, C e D são corruptos. Portando, devemos fechar o Congresso Nacional.

Falta uma parte do argumento para demonstrar o porquê do fechamento do Congresso Nacional.

Ex. 2:

São Tomás de Aquino: As coisas no mundo se movem. Para algo se mover, é necessário que tenha sido movido. Coisas que se movem acabam movendo outras coisas. E esse algo que moveu a primeira coia é Deus.

Não se conclui que o motor inicial do movimento é Deus.

Ex. 3:

São Tomás de Aquino: Toda causa tem uma consequência, mas uma causa também pode ser efeito de outra causa. Essa cadeia de causalidade tem um início, que é Deus.

Não se conclui que a causa primeira é Deus.

7. Manipulação semântica

Consiste em pegar um conceito geral e aplicar o significado que te interessa naquela discussão.

Ex. :

Essas manifestações provam que a direita quer voltar ao poder.

Não se define o que é “direita”.

8. Falsa proclamação de vitória.

Consiste em declarar vitória sem que a discussão tenha sido finalizada.

Ex. :

Você: Você concorda que a maconha poderia ser utilizada em fins medicinais?

Adversário: Talvez.

Você: Já que você concorda comigo, esse assunto se encerra aqui.

9. O uso do ad-hominem / ex concessis

Consiste em desferir um ataque direto ao adversário, ao seu modo de pensar, ao seu modo de viver ou às instituições às quais ele representa.

Ex. 1:

Adversário (repórter): Eu sou a favor da liberdade de expressão porque a liberdade não pode ser restrita.

Você: É claro que você diria isso. Você é um jornalista!

Ex. 2:

Adversário: Eu sou a favor do transporte público porque isso favorece a mobilidade urbana.
Você: É claro que você diria isso! Você só anda de carro!

10. Desvio

Consiste em se esquivar do contra-argumento quando você não vê uma forma de contrariar o argumento do adversário.

Ex.:

Aluno: Professor, o que veio antes, o ovo ou a galinha?

Professor: Não vai dar tempo de responder hoje porque a aula está acabando.

Uma forma mais sofisticada de desvio é fazer uma construção com muitas afirmações que aos poucos vão desviando do assunto principal até mudar de assunto ou até se concluir algo diferente da tese do adversário.

11. Redução ao absurdo

Consiste em aceitar a tese para logo em seguida extrair dela uma consequência absurda ou inaceitável. Seu contra-argumento deve conter um forte apelo emocional para que o desvio não seja notado.

Ex.:

Adversário: Eu sou contra a redução da maioridade penal porque as pessoas com menos de dezoito anos não são capazes de medir as consequências dos seus atos.

Você: Você quer uma marmanjo de dezessete anos usando drogas na frente da sua casa? O que você faria com um “anjinho” de dezesseis anos que assaltasse um idoso e o deixasse sem dinheiro para comprar seus remédios?

12. Apelo ao auditório

Consiste em utilizar a inocência ou a incapacidade do auditório para mentir sobre coisas que eles não podem constatar.

Ex.:

Se você entender de física quântica e sua platéia é formada por leigos em física, tente demonstrar, por exemplo, que a física quântica pode provar a existência de Deus. Sua falsidade pode ser tão absurda que seu adversário terá grandes dificuldades em refutá-la. Apresente números de pesquisas que não podem ser comprovados imediatamente.

13. Apelo à autoridade

Consiste em revestir de autoridade o argumento.

Ex.:

Adversário: A democracia é um bom sistema de governo.

Você: Quem é você para afirmar isso?

Schopenhauer sugere que utilizemos autores gregos, romanos ou a bíblia para conferir autoridade a um argumento mesmo que falso.

13.1. Uso do preconceito geral

Ex.:

Adversário: Os negros são inferiores aos brancos.

Você: Você está sendo racista!

13.2. Uso da autoridade da maioria

Ex.:

Adversário: A posse doméstica de armas de fogo não aumenta a violência, pois uma coisa é a arma e a outra é a intenção de ferir, o que pode ser feito com armas brancas ou com os próprios punhos.

Você: Porém, a opinião pública acha que o desarmamento diminui a violência.

14. Discurso incompreensível

Consiste em utilizar frases pseudo-eruditas diante de uma tese para a qual você não tem contra-argumentos.

Ex.:

Adversário: A democracia é a melhor forma de governo porque favorece a participação de todos na sociedade.

Você: A maior virtude humana é poder reconhecer a incompletude que nos é característica dada a posição singular que ocupemos no cosmos.

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