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A Neurose da Certificação do Processo

Ao longo de minha curta carreira – desculpe a antítese, mas vários desses anos foram intensos -, acompanhei – ou melhor, sofri – por várias vezes a implementação da adequação de processos para obtenção de determinadas certificações, auditorias internas e por fim auditorias externas realizadas por empresas especializadas para a obtenção da certificação desejada. São várias as certificações que já vi sendo implementadas:

  • CMMI: o CMMI (Capability Maturity Model – Integration ou Modelo de Maturidade em Capacitação – Integração) é um modelo de referência que contém práticas necessárias à maturidade em disciplinas específicas em Engenharia de Sistemas, Engenharia de Software, Desenvolvimento Integrado de Processo e Produto;
  • ISO 9001: ISO 9001 é um conjunto de normas de padronização para um determinado serviço ou produto que tem como objetivo melhorar a gestão de uma empresa;
  • ISO 27001: a norma ISO 27001 é o padrão e a referência Internacional para a gestão da Segurança da informação, assim como a ISO 9001 é a referência Internacional para a certificação de gestão em Qualidade.

Embora entenda que a empresa obtém certas vantagens comerciais por se vender como a detentora de certificações aceitas mundialmente, como desenvolvedor me interesso mais pelos problemas que me atingem nesse processo. Percebi que o foco das áreas técnicas deixa de ser o desenvolvimento de um software e passa a ser a produção de artefatos que sirvam como evidências de que um processo está sendo seguindo. Já cheguei a acreditar que nesse cenário é desejável, mas não imprescindível, que um software seja produzido.

Por que essa mudança de foco ocorre e por que gera estresse entre os técnicos? A adequação dos processos é conduzida principalmente por pessoas da própria organização, como uma área de Qualidade, que não entendem absolutamente nada da problemática envolvida no desenvolvimento de software. Em geral, essas pessoas são as mesmas que acham que o trabalho de um desenvolvedor de software é apenas fazer um campo aparecer na tela. Como não é o trabalho delas, não importa se colocar um campo na tela significa lidar com um ou mais sistemas legados, fazer uma integração com um ERP, migrar dados e às vezes esbarrar em políticas de segurança bem restritivas.

Se alguém alegar que a burocracia visa melhorar a forma como trabalhamos com o objetivo de conquistar uma certificação, desconfie, pois o inferno está cheio de boas intenções. O problema não é ter processos. Nosso dia é orientado a processos, mesmo que nunca tenhamos refletido sobre isso: acordar, escovar os dentes, tomar banho, tomar café, ir para o trabalho e etc. Dentro de nossas atividades, seguimos processos normalmente não documentados para investigar um problema ou implementar uma camada de acesso ao banco de dados.

Me lembro que em uma aula de uma pós-graduação em Engenharia de Software que fiz o professor explicou como era possível combinar CMMI nível 3 e Scrum. No nível 3, denominado definido, o processo é construído sobre as diretrizes do processo existente. Sendo assim, para o professor, essa descrição genérica somada às áreas de interesse também genéricas que definem esse nível de maturidade davam margem a se ter qualquer processo de desenvolvimento de software, inclusive os ágeis.

Desenvolvedor(a) de software, não se deixe enganar! Ou a empresa está focada em desenvolver software ou está focada em criar e complicar processos e produzir documentos. Um processo de desenvolvimento de software não deve ser deixado sob a responsabilidade dos ungidos, mas sim das pessoas intimamente relacionadas ao desenvolvimento. Essas pessoas, dadas as características de um projeto, devem ter liberdade para escolher a melhor forma de atuar seja por meio de um processo ágil, colaborativo ou algum outro. Esse é o processo. Quando se diminuem os empecilhos e se confia mais nas pessoas, se produz mais e melhor. A satisfação dos clientes valoriza a área de desenvolvimento dentro da organização e esta junto ao mercado. Essa é a certificação que se deve tentar alcançar.

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  1. Nenhum comentário ainda.
  1. 03/01/2017 às 6:24 AM

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